A teoria do problema da dupla empatia também contribui diretamente para a mudança de paradigma na forma como a sociedade enxerga o autismo. No dia 2 de abril é comemorado o Dia Internacional de Conscientização sobre o Autismo, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007 e instituído no Brasil pela Lei 13.652/2018.
O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento, permanecendo ao longo de toda a vida do indivíduo, caracterizada por apresentar diferentes graus de suporte em três áreas: interação social, comunicação social e comportamentos repetitivos e/ou restritos.
Damian Milton é um importante sociólogo, psicólogo britânico, ativista e defensor do movimento pelos direitos do autismo. Atualmente, é professor na Universidade de Kent, no Reino Unido. Começou a desenvolver a teoria do “double empathy problem” (ou “problema da dupla empatia”), que, por um lado, influenciou grupos de pesquisadores do assunto, mas, por outro, também suscitou críticas e controvérsias sobre o seu trabalho.
Nessa teoria do problema da dupla empatia, Damian Milton apresenta uma visão inovadora, na qual o comportamento das pessoas que estão no Transtorno do Espectro Autista deixa de ser um “problema a ser tratado” e passa a ser visto e respeitado pela sua forma de pensar e agir em relação aos outros.
De acordo com Milton: “Embora as pessoas não autistas sejam geralmente caracterizadas como socialmente habilitadas, essas habilidades podem não ser funcionais, ou efetivamente aplicadas, ao interagir com pessoas autistas. Esta desconexão bidirecional na comunicação e compreensão entre pessoas autistas e não autistas caracteriza o “problema da dupla empatia“ próprias e que não devem ser subjugadas para atender a visão de mundo do não autista.” (MILTON, 2012, p. 20).
Em minha experiência profissional como avaliadora com o público de pessoas com suspeita de TEA, ao entrevistar pais que recentemente receberam diagnósticos dos seus filhos que estão dentro do espectro autista, constatei que revelam que há empatia e comunicação eficiente quando se relacionam com outro autista. Sendo assim, é possível deduzir que autistas podem transferir bem as informações e divulgar mais sobre si mesmos para outros autistas.
Infelizmente, o padrão de normalidade na medicina ainda hoje é pautado por uma população neurotípica (ausência de transtornos do neurodesenvolvimento). Os testes psicométricos usam esse padrão para definir o que é classificado como patológico e normal em instituições de ensino, ambiente de trabalho, ambientes de lazer, instituições religiosas.
Para concluir, a teoria do problema da dupla empatia propõe uma explicação transacional, ou seja, a dificuldade de socialização se apresenta, na verdade, como um colapso mútuo da comunicação entre pessoas com diferentes modos de comunicação e compreensão social e não algo patológico ou uma inabilidade social, como definem os critérios atuais da medicina pautados no Manual diagnóstico e estatístico de transtorno mentais (DSM-5) e no Codigo Internacional de Doenças (CID-11).
Nesse sentido, torna-se fundamental repensar práticas educacionais e profissionais. Ambientes mais inclusivos são aqueles que consideram diferentes formas de comunicação, processamento de informação e interação social. Estratégias como comunicação clara, previsibilidade de rotinas, respeito a sensibilidades sensoriais e valorização de interesses específicos podem facilitar significativamente a participação de pessoas autistas em diversos contextos.
Além disso, a escuta ativa de pessoas autistas é essencial para a construção de práticas mais eficazes. Durante muito tempo, o discurso sobre o autismo foi predominantemente conduzido por profissionais e familiares, sem a devida inclusão da perspectiva de quem vive essa realidade. Atualmente, há um movimento crescente de valorização das vozes autistas, o que contribui para uma compreensão mais autêntica e menos estigmatizada da condição.
Outro aspecto relevante é o impacto dessa teoria nas relações interpessoais. Ao compreender que a dificuldade de comunicação é mútua, há uma tendência maior de promover empatia por parte de pessoas neurotípicas, reduzindo julgamentos e interpretações equivocadas. Isso favorece relações mais equilibradas, baseadas em respeito, adaptação e entendimento recíproco.
No contexto clínico, essa visão também influencia a forma como intervenções são conduzidas. Em vez de focar apenas na “correção” de comportamentos, profissionais passam a considerar a individualidade, os limites e as potencialidades da pessoa autista. O objetivo deixa de ser a adequação a um padrão rígido e passa a ser o desenvolvimento de habilidades que promovam autonomia, bem-estar e qualidade de vida.
Por fim, iniciativas de conscientização, como o Dia Mundial do Autismo, desempenham um papel fundamental na disseminação de informações e na redução do preconceito. No entanto, mais do que datas simbólicas, é necessário um compromisso contínuo com a inclusão, acessibilidade e respeito às diferenças neurológicas. A construção de uma sociedade mais inclusiva passa, necessariamente, pelo reconhecimento de que diferentes formas de existir, comunicar e interagir são legítimas e devem ser valorizadas.
Referência:
MILTON, Damian. Sobre o status ontológico do autismo: o ‘duplo problema da empatia’. Disability & Society, v. 27, n. 6, p. 20, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1080/09687599.2012.710008. Acesso em: 30 mar. 2023.
Autora: Luanda Rosa Queiroz- Psicóloga, Neuropsicóloga e Autista nível 1




